Projeto torna possível a convivência com o semiárido

Participantes do 10º Encontro de Jornalistas Fundação Banco do Brasil conheceram iniciativa que incentiva a permanência dos jovens no campo

Por Bruno Maciel

A visita ao Centro Agroecológico São Miguel, na sede da AS-PTA Agricultura Familiar, no município de Esperança, na Paraíba, foi o ponto alto do 10º Encontro de Jornalistas Fundação Banco do Brasil. Os 60 jornalistas e profissionais de comunicação observaram de perto o projeto Ecoforte – Redes de Agroecologia na Borborema que incentiva o protagonismo das mulheres nos quintais agroecológicos, o acesso a mercados e feiras agroecológicas e promove os fundos rotativos solidários e os bancos de sementes crioulas. A visita foi realizada dia 21.

Roselita Vitor, uma das lideranças do Polo da Borborema recebeu os convidados e apresentou a situação atual da região. “Aqui já estamos no quinto ano consecutivo de seca. Apesar disso, nós não vemos os animais morrendo. Ao contrário, com a convivência com o semiárido vemos o avanço das feiras agroecológicas e a consolidação do protagonismo das mulheres e da juventude para o desenvolvimento sustentável da região”, disse.

Na sede da entidade os participantes tiveram oportunidade de conhecer as redes de agroecologia da Borborema e de conversar com jovens agricultores que são atendidos pelas ações desenvolvidas pelo projeto.

Em seguida, já na Comunidade Cinza, na zona rural, o primeiro contato com Delfino da Silva Oliveira e sua família. Delfino, um rapaz já experiente aos 23 anos. Hoje é feirante da Ecoborborema e recentemente começou a experimentar a atividade de apicultor. Para ele, participar do projeto que conta com recursos não reembolsáveis da Fundação Banco do Brasil foi crucial para sua permanência no campo. O sétimo de oito filhos, ele foi o único que não deixou a terra dos pais e que viu na agricultura agroecológica um potencial de renda e qualidade de vida. “Na cidade eu teria um chefe que poderia gritar comigo se eu chegasse atrasado ou não fizesse alguma tarefa. Aqui, eu mesmo começo na hora que tem que começar e termino na hora que tem que terminar. Não tem ninguém reclamando comigo”, explica.

Na propriedade de Delfino também tem tecnologias sociais que tornam a convivência com o semiárido mais tolerável. Ele possui duas cisternas de placas, uma cisterna calçadão e o biodigestor – uma tecnologia que transforma os dejetos animais em gás de cozinha. Hoje ele sabe que essas soluções são eficazes. Mas nem sempre foi assim. “Cavei o buraco e taquei bosta dentro. 10 mil litros! Vamos ver se isso vai dar certo, né?” divertiu-se com as dúvidas iniciais antes de saber que iria produzir gás suficiente para gastar somente um botijão por ano.

Delfino também já foi atendido pelo projeto de reaplicação da tecnologia social PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável). O PAIS prevê a produção de alimentos orgânicos para consumo familiar e incentiva a comercialização do excedente, além de capacitação técnica para as melhores práticas. Com esse conhecimento a lógica de produção se inverteu e, hoje, Delfino produz para vender em uma das 12 feiras agroecológicas do Polo Borborema e consome em casa o excedente da produção. “Aqui não tem desperdício. Se eu não vender na feira, nós comemos em casa. E se não der para a gente comer, a gente dá para os animais”, revela. “Hoje mesmo, a feira foi boa. Só não foi melhor porque eu não tinha mais produtos” diz, animado.