Asas para quê?

Fonte da foto: Foto de Chris Sabor en Unsplash

Crônica da semana por Nilson Lattari*

          Por que pedimos asas se não temos coragem para enfrentar o vento e a chuva que o espaço aberto nos dá? Se não sabemos ter coragem de ir aonde os pés não podem tocar e sentir a segurança da terra. De que adianta querermos asas se somos inseguros diante das pedras nos caminhos, que nos causam temor?

          As asas são para poucos. As asas são para aqueles que se arriscam a voar sem tino, não se importando com as adversidades que virão e que o destino, esse ser indistinto, sem cor, sem tato, simplesmente não existe, porque voar é como olhar o infinito do alto, e enxergar mais longe. Logo, para esses, o destino é um lugar sem fim.

          Voar é sempre ter um preço a pagar. Alguns Homens têm asas. Asas tão longas e desenhadas que aos próprios anjos, esses seres, naturalmente, alados, se espantariam com a passagem deles, e os seguiriam ainda mais temerários, porque proteger seres alados que não sabem voar como anjos, são seres humanos prontos a revolucionar todo o universo em que vivem.

          Essas asas são as armas da imaginação para voar mais longe do que outros. As têm debaixo dos braços e imaginam, antes de todos, o que pode ser o futuro, para que todos tenham asas também.

          Para voar é preciso soltar as amarras que ligam nossos pés à terra. É não ter chão para pisar porque as pegadas deixam marcas, as asas não.

          Voar é olhar o labirinto do alto, vendo a solução onde todos teimam em bater contra as paredes e se perder em discussões inúteis. Quem voa não tem paciência e virtude para ouvir o eterno ir e vir dos tolos, que se perdem em apontar caminhos, enquanto  outros teimam em se perder nos mesmos de sempre.

          Se um dia alguém aparecesse com asas e alçasse voo sobre as cidades seria apontado cá da terra como algo inimaginável. Seria perseguido e todas as tentativas seriam feitas para que o segredo pudesse ser conhecido. Como os pássaros raros que andam pelos céus, pés percorreriam a terra até poder encontrar onde fica seu refúgio. Por mais alto que ele fosse seria alcançado um dia.

          Sendo dono de tal segredo, você voaria?

          Assim são as mentes e corpos que querem voar, e apenas conseguem admirar cá de baixo a beleza do céu inerte à espera de anjos terrestres.

          Se poetas conseguem, com sua escrita cheia de asas, incomodar as mentes que ficam cá aprisionadas, o que não aconteceria com as pessoas que pudessem, realmente, ter asas, e um dia alçassem voo?

*Nilson Lattari. Graduado em Literatura pela UERJ e especialização em Estudos Literários pela UFJF. Fui primeiro colocado em crônicas no Prêmio UFF de Literatura, 2011 e 2014, e terceiro colocado em contos pelo mesmo prêmio em 2009. Primeiro colocado em crônicas prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto, 2014. Finalista em livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013, finalista em romance Prêmio Rio de Literatura, 2016, além de várias menções honrosas em contos, crônicas e poesias.