Crônica da semana: Por quem são as trilhas?

Por Nilson Lattari*

          Quando as caravanas seguem pelas areias do deserto, as suas sombras são marcadas pelo sol do topo das dunas, esticadas no chão, como se caminhassem no céu de areia, acima dos vales onde os grãos amarelos se deitam suaves, tolhidos pelo cansaço na viagem do vento. As caravanas seguem numa cadência, a voltear no rumo do destino que está à frente, contornando os montes; e por que não seguem uma linha reta, menos distante?

          Os tropeiros que avançam sobre as florestas volteiam os precipícios e contornam as crateras, se dividem quando se confrontam com as árvores, evitam lugares escondidos onde animais peçonhentos, ferozes se escondem por caça, por curiosidade ou por receio.

          Em todo o mundo, habitantes das trilhas avançam no mesmo andar cadenciado, como se uma música suave tocasse, surda em seus ouvidos e o lento caminhar embalasse, constante, suave com o ouvido a captar o som dos próprios passos, ritmo universal dos pés a engolir espaços.

          Por que todas as trilhas são contornos de obstáculos, guerreiras obscuras a caminhar para um destino e a empalar nas marcas do terreno, onde o mato não se cria e tabula uma cor de amarelo, de vermelho, de areia, as pegadas firmes de animais e homens?

          Vivemos andando nas trilhas e contornamos obstáculos, isso elas nos ensinam. Nas trilhas admiramos a paisagem que bamboleia aos nossos olhos, seja na garupa de um animal ou simplesmente no bater ritmado dos nossos passos, e sentimos o suor a escorrer pelo rosto, lágrimas sem desgosto, apenas o sinal cansado demonstrando que o corpo reage em choro descoberto.

          As trilhas como as trilhas são, caminhos que contornam, convergem, serpenteiam e seguem rastejantes animadas e constantes, se entrelaçam por medo ou se divertem.

          As trilhas são caminhos que aparecem para nossos destinos, difíceis, estreitos, onde observamos a vida passar, cadenciamos a caminhada, o momento em que a vida nos obriga a ver a paisagem, momentos de refletir, ter cuidado até que a estrada livre e desimpedida apareça. Se ela está escondida no vale, entre árvores e sombras, ou no topo de uma duna no deserto, demonstrando o quanto somos pequenos, ela é muito mais feliz e mais recôndita quando as percorremos, quando as descobrimos perdidas na floresta e com alívio nos dá a esperança de um destino seguro.

          Nossas vidas são trilhas a serem percorridas, contornando obstáculos, admirando a paisagem, no início refém dos nossos guias, e depois sozinhos ou quem sabe na festiva companhia de alguém.

*Nilson Lattari é graduado em Literatura pela UERJ e especialização em Estudos Literários pela UFJF. Fui primeiro colocado em crônicas no Prêmio UFF de Literatura, 2011 e 2014, e terceiro colocado em contos pelo mesmo prêmio em 2009. Primeiro colocado em crônicas prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto, 2014. Finalista em livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013, finalista em romance Prêmio Rio de Literatura, 2016, além de várias menções honrosas em contos, crônicas e poesias.