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Crônica da semana: O mal com o mal…

Foto de Sander Sammy en Unsplash

Por Nilson Lattari

          “Os homens acreditam que é seu direito retribuir o mal com o mal e, se não puderem fazê-lo, acreditam que perderam a liberdade”, disse Aristóteles. Fiquei imaginando como esse pensamento tem a ver com os momentos que vivemos no mundo, hoje.

          Retribuir o mal com o mal é uma forma de vingança, é uma maneira de impor  vontades, partindo do pressuposto que julgamos que os atos do outro sejam maléficos, prejudiciais e poderão nos acarretar danos. Para isso, julgar o outro como mau pressupõe algum arcabouço ideológico seja religioso ou político. Maldizer as palavras do outro como danosas à nossa integridade é uma arma, acima de tudo uma arma.

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          Se a discordância fosse apenas uma discordância, as coisas poderiam acabar ali, com cada qual indo para o seu lado, levando as suas convicções. No entanto, há um medo em alguma das partes. Se aquilo que eu não compreendo, por diversas razões, inclusive por uma teimosia arcaica de tentar encaixar livros religiosos ou políticos e suas ideias para impor vontades não se encaixa nas minhas, isso me levará a um conflito, e a considerar o outro como o mentor do mal.

          Fica muito difícil saber onde está o mal nesses casos. Se nas ideias ou nas intenções. Rótulos são a melhor maneira de definir a maldade alheia. Sem nem mesmo compreender as ideias contrárias, o simples fato delas não se enquadrarem nas nossas qualifica o outro? E a resposta será sempre uma maldade maior, para coibir e dominar a suposta maldade alheia.

          Esse tipo de comportamento é uma crença que, segundo Aristóteles, faz crer aos lados que um sentimento de perda de liberdade se instala. Por um lado, aquele que quer impor ao outro suas ideias vê, na possibilidade de calar, um sentido de lutar por uma suposta liberdade que, em tese, seria de todos, inclusive do oponente. Tipo um exorcismo.

          Quando um grupo fala em defender a “nossa” liberdade, não está incluindo todos nessa liberdade, mas usando esse “nossa” como a possibilidade de fazer o que bem quer, mesmo que rompa com o senso de humanidade ou as leis e se imponha ao outro.

          Afinal, a nossa liberdade é geral, fluida e constante para que todos, sem exceção, e a despeito de que se acredita em termos espirituais ou físicos, possam usar esse atributo de liberdade dentro dos limites da lei e da ordem. Lados opostos não precisam, cada um, de um tipo de liberdade exclusiva. Lados opostos convivem na liberdade de viver cada um o seu papel social, sua vontade pessoal e seu arbítrio.

          O mais difícil na liberdade é entender o que ela é e o que representa para cada um. Se um lado impõe agressividade nas suas condutas provoca no outro um poder de reação. E, no final de tudo, todos acreditam estar corretos, buscando uma liberdade fictícia. E o princípio da liberdade, dentro de cada um, de estar correto, conforme suas convicções pessoais ou grupais, é um contrassenso. Para isso, o mal se combate com as formas corretas e legais de um estado de direito. E ter direitos e deveres é um dos princípios fundamentais para viver em liberdade.   

Nilson Lattari. Graduado em Literatura pela UERJ e especialização em Estudos Literários pela UFJF. Fui primeiro colocado em crônicas no Prêmio UFF de Literatura, 2011 e 2014, e terceiro colocado em contos pelo mesmo prêmio em 2009. Primeiro colocado em crônicas prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto, 2014. Finalista em livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013, finalista em romance Prêmio Rio de Literatura, 2016, além de várias menções honrosas em contos, crônicas e poesias.