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Crônica da semana: “Onde existe a vida”

Foto de Jill Heyer en Unsplash

Por Nilson Lattari*

Há uma cena em um dos primeiros filmes de O Planeta dos Macacos, aquele primeiro, em que o personagem encontra no meio do deserto, da então destruída Terra, uma planta que teima em renascer, que me cativou. Às vezes, lembro-me da cena, quando ando pela cidade concretada e vejo uma planta tentando se erguer no meio da calçada, a despeito da passagem dos pedestres.

          Por outro lado, fui surpreendido, certa vez, com um vídeo no Youtube, em que um cego aparece tocando reggae com uma guitarra improvisada por ele, feita de uma lateral de uma lata, uma extensão com cordas esticadas. Com poucos acordes ele consegue tirar uma música audível, compreensível, acompanhada pelo embalo de sua voz.

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          Vendo cenas assim, eu imagino como a natureza e a criatividade humana são incríveis. Outras vezes, vendo as cenas de mortandade de crianças na África, principalmente, e em outras partes do globo, nos colos de suas mães, fico a pensar que essa genética da criatividade é uma afronta aos poderosos de plantão, que se acham os donos das verdades. Olho as fotos, os vídeos e imagino que no meio daquela mortandade estaria morrendo o cientista que, no futuro, descobriria a fusão a frio ou a cura do câncer.

          O maior patrimônio da humanidade é o próprio ser humano, a despeito de alguns terem a genética da destruição. Em tempos modernos, onde somente os consagrados são justiçados pelas pessoas, este mesmo mundo não olha com carinho para esses descobridores e inventores que morrem a céu aberto, teimosos na criatividade, a despeito das adversidades, demonstrando que o que é bom vinga, o que é ruim é puro despeito e tende a morrer em breve.

          Fico pensando que a sociedade, assim como a natureza, não se defende, ela se vinga. Desprezamos a imaginação do povo, a quem damos o nome de cultura popular, como se ela fosse uma cultura à parte e não aquela que vai se transformar, no futuro, em uma nova criação cultural. É o mesmo desprezo que fazem com o Hip Hop, o Reggae e o Funk. A cultura do povo, fruto da imaginação não se defende, ela se vinga mostrando uma nova forma de cultura: ela resiste e floresce no concreto.

          E o mesmo ocorre quando os poderosos teimam em dar ao povo pobre uma educação precária, inibindo o aparecimento de novos cientistas, até porque a genética do gênio, seja em que área for, não obedece à lógica do berço do bem-nascido, mas seria como uma metralhadora giratória que atira a esmo. Caindo no cérebro da criança pobre, que é desprezada por força da cor ou do gênero, é a sociedade se vingando do poderoso que padecerá da enfermidade que poderia ser curada se não fosse o egoísmo e o preconceito.

Nilson Lattari. Graduado em Literatura pela UERJ e especialização em Estudos Literários pela UFJF. Fui primeiro colocado em crônicas no Prêmio UFF de Literatura, 2011 e 2014, e terceiro colocado em contos pelo mesmo prêmio em 2009. Primeiro colocado em crônicas prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto, 2014. Finalista em livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013, finalista em romance Prêmio Rio de Literatura, 2016, além de várias menções honrosas em contos, crônicas e poesias.