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Crônica da semana: “Quem te observa sou eu”

Por Nilson Lattari*

          A madrugada já vai alta. A luz da lua entra pelos meandros dos becos e constrói sombras onde o perigo se esconde, e os namorados se recolhem e se entregam ao prazer.

          Do alto, observo as janelas escurecidas e, em uma delas, a iluminação ainda resiste. Sua sombra está petrificada no beiral da janela a observar. Nós dois sabemos que estamos ali. Percebo o seu olhar em mim, enquanto meu voo percorre lentamente de janela em janela.

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          É o nosso encontro noturno. Você sabe a hora da minha chegada e eu quando você parte para a janela para ser o assistente único. Em outras, no entanto, posso adivinhar os mesmos olhares, esses escondidos nas sombras, na escuridão.

          O meu encantamento, eu sei, está na maneira como me visto, a caminhar nas minhas roupas transparentes e me divirto a imaginar como meu corpo é descoberto. Meu feitiço está muito além das roupas que eu visto e está sólido nos mistérios que eu me permito conceder na luz que deixo acesa.

          Pairo sobre todos, como se flutuasse nos ares da imaginação. Sou o feitiço inconfessável, sei que o sopro mágico que lanço sobre todos está no sorriso disfarçado que faço de longe.

          Me divirto ao perceber quantos olhares se lançam esperançosos de que eu mande um beijo, um abraço, faça um leve aceno e, no entanto, me contenho, porque que sei que a minha magia está em não ser, em não existir quando o mundo abandona as sombras e a luz do sol vem se oferecer.

          Que estranha magia exerço sobre eles, meus admiradores, que investigam meu quarto com sofreguidão, tentando ser o primeiro a se entregar aos dedos mágicos dos meus dedos longos que se dirigem aos lábios?

          Sou segredo, e enfeitiço os amantes do meu olhar. Sou magnetismo sensual sobre os olhares, sou a hipnose que sensualiza. Pego em minha vassoura mágica e voo sobre as janelas desistentes, e entro nos sonhos dos olhares ora adormecidos. Vivo as fantasias que me trazem, porque sei quão mágica é a ideia de cada um que pensa em que eu seja de alguém.

          Ledo engano. A magia está em não me deixar ver. Durante o dia me disfarço em uma dama comum, de roupas coloridas ou discretas. Guardo as roupas negras e os adereços que me caem dos ombros, e o meu olhar enegrecido se desfaz na luz.

          Quando chego de volta à janela, e languidamente penetro em minha janela, ainda posso ver uma única janela a brilhar a luz do abajur. O escolhido começa a dormir, depois de poder lhe penetrar nos sonhos e viver com intensidade o que ele me reservou.

Nilson Lattari. Graduado em Literatura pela UERJ e especialização em Estudos Literários pela UFJF. Fui primeiro colocado em crônicas no Prêmio UFF de Literatura, 2011 e 2014, e terceiro colocado em contos pelo mesmo prêmio em 2009. Primeiro colocado em crônicas prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto, 2014. Finalista em livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013, finalista em romance Prêmio Rio de Literatura, 2016, além de várias menções honrosas em contos, crônicas e poesias.