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Crônica da semana: “Amores Platônicos”, escrita por Nilson Lattari

Foto de Alexander Grey na Unsplash

          O amor platônico tem mais a ver com o trabalho da imaginação do que com a contemplação de um amante ou uma amante.

Esse amor concebe o desejo por alguma coisa, seja por um objetivo físico ou não. É como planejar para conseguir um objeto de desejo que está distante, mas pode ser vivido dentro da nossa imaginação.

Podemos criar um universo em particular onde todas as coisas boas acontecerão, e imaginamos um final feliz para nós.

          Para os platônicos, observar um amor que sente por alguém, vê-lo passar diante da porta, conversar no ambiente escolar ou no trabalho ou, simplesmente, alguém que está sempre no ônibus, naquele mesmo horário e lugar é uma contemplação que preenche um vazio na existência.

Imaginam aproximar-se e conversar com ele ou ela e esse amor presumido responderá com as respostas que se espera ouvir.

          Isto em um mundo real, onde vemos alguém passar e podemos sentir seu perfume, ouvir sua voz e vê-lo naquele mesmo compromisso imaginário em nossa mente.

          Como seria o amor platônico em um mundo virtual?

          De repente, encontramos alguém na rua, descobrimos seu nome e o que faz e vamos até as redes sociais para investigar sobre aquele amor. Vivenciamos seus sorrisos, descobrimos seus hábitos, onde trabalha, do que gosta, sem nem mesmo ouvir, de viva voz, todos os seus projetos de vida.

          O amor platônico passa a ser um voyeurismo, alguém que espreita o outro com um simples digitar e clicar de um mouse.

O cursor se move e acaricia aquele rosto como se ele pudesse responder.

Nesse amor platônico, podemos nos disfarçar em alguém que se aproxima, pergunta, mesmo que ele esteja, fisicamente, a quilômetros de distância.

          Nesse amor platônico virtual, podemos nos comunicar na velocidade instantânea da internet, escondido atrás de uma tela de computador, onde podemos ser o que quisermos.

Ao contrário de, na vida real, sermos aquilo que somos de verdade, sem mentiras, submetido ao escrutínio das críticas e das ironias.

          O mundo platônico virtual é o mundo dos tímidos, dos avessos aos arroubos das aventuras amorosas.

Nele, os tímidos ganham vida e se tornam tudo aquilo que não são e se transformam naquilo que o objeto de desejo quer.

          Nesse caso, a imaginação é que invade o espaço do outro, criando nele a curiosidade de conhecer alguém que, supostamente, seja tudo aquilo que se quer.

          Platão emprestou seu nome, e os homens o transformaram em um fetiche muito além da imaginação.

          Um certo platonismo é um tipo de covardia e de pouca autoestima.

E o mundo virtual criou uma série de aventureiros escondidos em suas cadeiras e telas de computador. No mundo virtual, despertamos todos que se quedam escondidos.

E mostram todo o encantamento dos contos de fadas, girando em um mundo imaginário.

          O amor platônico se realiza no mundo real pela fuga, e no mundo virtual por uma falsa coragem.