Livros, não jogue fora

Não jogue livros fora. Dôe a bibliotecas.
A propósito, eu me lembro das aulas de alemão que tive com a Professora Gisele Servare, quando aprendi que há uma expressão no idioma de Goethe para significar a queima de livros: Bücherverbrennung. Palavra enorme e com aparência horripilante, própria mesmo para significar o brutal ato de destruir livros.
Jogar livros fora é, ainda que sem muita malícia e consciência, fazer algo semelhante a Bücherverbrennung.
O livro que, por algum motivo, não me serve, pode servir a outra pessoa. Daí que o melhor destino para os livros em disponibilidade é uma biblioteca pública.
Se o livro já não está em bom estado, o doador deve providenciar a restauração antes de colocá-lo na biblioteca contemplada.
A biblioteca, desde tempos imemoriais, preserva livros. A mais famosa biblioteca da Antiguidade foi a de Alexandria, destruída por um incêndio, segundo se supõe. Com sua desaparição, grande parte da História Antiga foi sepultada.
No Brasil as maiores bibliotecas são a Nacional (Rio de Janeiro), a da Câmara dos Deputados (Pedro Aleixo) e a Biblioteca Pública de São Paulo.
No Espírito Santo, Estado onde resido, as maiores bibliotecas são a Estadual, a da Academia Espírito-Santense de Letras, a do Instituto dos Advogados, a do Instituto Histórico, a da UFES.
Celebremos na poesia o livro e o semeador de livros.
“Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”  (Clarice Lispector).
“Bendito, bendito é aquele que semeia livros,
livros à mão cheia e manda o povo pensar;
o livro caindo na alma,
é germe que faz a palma,
é chuva que faz o mar.” (Castro Alves).
Devo a uma bibliotecária grande parte do amor que adquiri pelos livros.  Eu a chamava de Dona Telma.  Era a responsável pela Biblioteca Pública Municipal de Cachoeiro de Itapemirim.  Indicava-me e aos meus colegas os bons livros.  Transmitia aos frequentadores de nossa Biblioteca Pública o gosto que ela própria tinha pela leitura. Ensinava-nos a conservar os livros com capricho, cuidado e carinho.
Onde estará Dona Telma? Imagino que ela esteja lá em cima, em outras paragens, cercada de livros azuis.
Se não posso encontrá-la, se ela já se distanciou do mundo dos mortais, saúdo todas as bibliotecárias e bibliotecários do Brasil, reverenciando a bibliotecária de minha infância – essa Dona Telma que, com os livros, eu tanto amei.
João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, professor itinerante, escritor.
Acaba de publicar Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves (GZ Editora, Rio de Janeiro).