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Vírus Chikungunya desencadeia atrite crônica após 3 anos

PMVC

A Chikungunya (CKV) é uma das três doenças transmitidas atualmente no Brasil pelos mosquitos  Aedes aegypti e Aedes albopictus. As outras são a dengue e a Zika. Apesar de seus sintomas diretos serem bem conhecidos pela população, o que muitas pessoas não sabem é a relação direta do CKV com as doenças reumáticas, que podem ser agravadas, ou até mesmo induzidas, pelo vírus. Este quadro é um grave problema de saúde pública nos locais da epidemia, mas cuja característica e evolução é pouco conhecida. E a Bahia, que foi a segunda porta de entrada da doença no País, é um dos locais mais afetados.  As cidades de Feira de Santana, Riachão do Jacuipe, Lauro de Freitas e Salvador são os municípios mais afetados do estado.

Em 2004, houve uma epidemia na África e Ásia que atingiu cinco milhões de pessoas. Em 2013, o vírus chegou ao Caribe e, em 2014, ao Brasil. Os primeiros casos foram identificados em nosso Estado, mais especificamente em Feira de Santana, no mês de abril.

O CKV é uma virose que, ao penetrar nos seres humanos através da picada do mosquito, desencadeia a doença em cerca de 95% dos casos. Isto em um prazo curto, de dois a quatro dias. Essa doença se caracteriza por febre, lesões de pele, dores musculares, cefaleia, dor nas juntas, mal estar e dor nas articulações. O mais preocupante, no entanto, é que uma parcela relevante destes indivíduos doentes evoluirá para o quadro de artrite, ou seja, a inflamação de suas articulações. Nestes casos, elas ficam inchadas e extremamente doloridas, causando dificuldade para andar, levantar os braços, subir escadas, pegar objetos e até mesmo dormir. Com estes sintomas, muitos indivíduos ficam sem trabalhar ou frequentar a escola.

Entre 88% e 100% da pessoas com CKV apresentarão quadro articular nas primeiras seis semanas de doença, e isso vai reduzindo lentamente. Chegando a uma cifra impressionante de 60% de artrite crônica após 3 anos da picada do mosquito. Estudos realizados em países da Ásia (Ilha Reunion) confirmam esse aspecto e demonstram que a artrite por Chikungunya pode durar de apenas alguns meses até um período entre 6 e 8 anos, caso não seja ela não seja tratada adequadamente.

Hoje, os consultórios dos reumatologistas estão recebendo cada vez mais doentes com a forma crônica da doença, que tem baixa resposta ao tratamento somente com analgésicos e anti-inflamatórios. Em muitos casos é necessário o uso de corticoides e até mesmo imunomoduladores, sempre com acompanhamento com médico reumatologista. Os pacientes apresentam limitações, um estudo revelou que 63% apresentam dificuldade em levantar da cadeira após Chikungunya, 55% em andar e pegar objetos, 53% não conseguem abrir uma garrafa e 37% dificuldade para tomar banho diário.

Além de poder induzir diretamente a artrite, o CKV, de forma interessante, também pode revelar uma doença reumática que ainda não havia se estabelecido (tais como artrite reumatóide, espondiloartrites, artrite psoriasica e gota).  Até mesmo a doença de pele psoríase pode se iniciar após CKV. Outra consequência é que os pacientes com doença reumática prévia podem apresentar piora de seu reumatismo e das dores. O vírus também pode induzir ou agravar síndrome do túnel do carpo. Não há vacinas nem tratamento especifico para o CKV. Entretanto, as manifestações reumáticas da doença podem, e devem ser tratadas  por um reumatologista.

Prof. Dr. Jozélio Freire de Carvalho

Pós-Doutorado pelo Center for Autoimmune Diseases do Sheba Medical Center, afiliado à Universidade de Tel-Aviv, Israel. Livre Docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Diretor científico da Sociedade de Reumatologia da Bahia. Atua no Centro Médico do Hospital Aliança, em Salvador, Bahia. Autor de 40 capítulos nacionais e internacionais em livros de medicina. Editor de quatro livros médicos. Já publicou 180 artigos científicos internacionais.

Jozélio tem vasta experiência em Reumatologia, atuando principalmente nos seguintes temas: imunobiológicos, síndrome antifosfolípide, lúpus eritematoso sistêmico, doenças do tecido conjuntivo, doenças reumatológicas da infância e da adolescência, auto-imunidade, auto-anticorpos, dislipidemia e aterosclerose.