“Julho das Pretas” reafirma a identidade afro-brasileira como ato político

Imagem divulgação – Texto Claucia Pinheiro//Assessoria de Imprensa

Estudo publicado na NLM revela que a padronização da beleza eurocêntrica resultou na estigmatização e desvalorização da mulher negra.

Para a biomédica Jéssica Magalhães, reconhecer a estética preta rompe séculos de apagamento e fortalece o pertencimento. 

Biomédica Jéssica Magalhães – Foto divulgação

Celebrando o mês de conscientização e afirmação da identidade afro-brasileira, o “Julho das Pretas” é um movimento nacional que tem o objetivo de visibilizar e fortalecer a luta de mais de 60 milhões de mulheres negras no país.

Essa parcela, que corresponde à 28% da população nacional segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), reivindicam a beleza negra como ato de resistência e expressão política frente ao racismo. 

Historicamente invisibilizadas ou forçadas à estereótipos estrangeiros, a mulher negra enfrenta barreiras contínuas na construção da própria autoestima.

De acordo com a biomédica esteta Jéssica Magalhães, especialista em pele preta com mais 10 anos de experiência, o movimento ‘Julho das Pretas’ reconhece a beleza da pele como instrumento político de pertencimento e valorização. “Diante da conotação social e política que integra o movimento, se reconhecer como mulher preta é lutar contra a invisibilização da nossa estética. Falar sobre os cuidados com a pele, nesse contexto, é romper com o apagão histórico dos séculos anteriores”, explica.  

A invisibilização da estética preta é um ponto focal das ações do mês de julho, conforme relatado no estudo “Racialized body dissatisfaction in Black women”, publicado na National Library of Medicine (NLM). A pesquisa, datada de fevereiro de 2025, revela que a padronização da beleza eurocêntrica resultou na estigmatização e desvalorização das mulheres negras, sobretudo ao redor da aparência.

Como forma de se protegerem, o estudo observa uma mudança comportamental desse público, à fim de reduzirem o aparecimento de “marcas estigmatizantes”.

Pesquisadora da área, Jéssica alerta que essa expressão rotula pejorativamente à mulher negra, caracterizando indivíduos ou grupos de maneira preconceituosa.

Nesse sentido, a biomédica esteta revela que a estética negra possui características únicas, como lábios volumosos, maçãs do rosto definidas, nariz com base alargada, cabelos crespos e a pele viçosa e resistente. “A estética negra é uma das heranças mais valiosas e identitárias que nós temos. Com traços marcantes, definidos, volume e pele viçosa, o cuidado com essas características precisam ser potencializados. Cuidar dessa herança genética é uma forma de resistência, e nos faz entender a necessidade de redobrarmos os cuidados com a nossa identidade”.

A atuação da especialista vai de contra as mudanças comportamentais apontadas no estudo, promovendo o empoderamento estético frente às particularidades da pele preta.

Impulsionada pelo tema da 13º edição do Julho das Pretas em Salvador, “Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver”, Jéssica reforça que os cuidados com identidade são expressões históricas e culturais, voltadas ao respeito, valorização e reparação da estética feminina negra. 

“Toda a mobilização nacional que o movimento traz, retoma a necessidade de enxergarmos a mulher negra no centro das discussões, sejam elas políticas, econômicas ou no reforço da nossa identidade estética. A beleza preta e suas características únicas surgem como aliada poderosa na representatividade, comunicação e nos espaços democráticos de toda a sociedade”, conclui. 

Julho das Pretas é uma ação criada em 2013, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, e celebra paralelamente o “Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha”.

Ao longo dos anos, o mês ganhou força no Brasil como um marco de mobilização coletiva, fortalecendo pautas que vão desde a saúde e educação até a valorização da estética negra como ferramenta de resistência.