O impacto silencioso da jornada tripla na saúde mental das mulheres

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Dar conta de tudo, mas a que custo? A jornada tripla e o impacto silencioso na saúde mental das mulheres

Acúmulo de trabalho, atividades de cuidado e responsabilidades invisíveis pode levar à ansiedade, depressão e esgotamento

Em meio às homenagens do mês das mulheres, especialistas da saúde mental refletem sobre um tema urgente: o impacto da chamada “jornada tripla” na saúde mental. O termo se refere ao acúmulo de responsabilidades que muitas mulheres assumem diariamente: trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado com filhos ou familiares, somados à chamada carga mental, aquela responsabilidade invisível de planejar, organizar e antecipar as necessidades da família.

De acordo com a professora Mila Motta, mestre em Psicologia da Saúde pela UFBA e docente do curso de Medicina da Afya Vitória da Conquista, essa sobrecarga constante tem efeitos significativos. “A sobrecarga crônica está associada ao aumento do estresse, privação de sono e redução do tempo de autocuidado. A curto prazo, podem surgir irritabilidade, fadiga e ansiedade. A longo prazo, pode contribuir para o desenvolvimento de transtornos como depressão e esgotamento profissional”, explica.

Os sinais de que algo não vai bem nem sempre são facilmente reconhecidos. Sensação persistente de esgotamento, culpa constante por não dar conta de tudo, dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite e perda de interesse em atividades antes prazerosas estão entre os principais alertas. Muitas mulheres, no entanto, continuam funcionando em alto desempenho mesmo adoecidas, o que pode atrasar a busca por ajuda.

Ansiedade, depressão e burnout têm sido cada vez mais associados a essa rotina de múltiplas jornadas. “Quando há esse acúmulo de papéis, o esgotamento não se restringe ao ambiente profissional. Ele se torna mais abrangente e persistente”, destaca a professora. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mulheres apresentam aproximadamente o dobro de prevalência de depressão em comparação aos homens, sendo fatores como desigualdade de gênero e sobrecarga de papéis determinantes importantes.

A dificuldade em reconhecer limites também tem raízes culturais. A expectativa social de que a mulher seja forte, cuidadora e capaz de dar conta de tudo reforça o sofrimento silencioso. Pedir ajuda ainda é visto, muitas vezes, como sinal de fraqueza.

Para mudar esse cenário, Mila Motta reforça a importância de estabelecer limites, redistribuir tarefas e fortalecer redes de apoio. “Cuidar da saúde mental não é egoísmo. É uma condição essencial para sustentar qualquer papel social de forma saudável ao longo do tempo”, afirma.

Por Darana RP: Bianca Menezes//Flamarion Reis//Lara Machado