O que seu interruptor desligado não revela sobre a “pegada invisível” da IA e da nuvem

Texto e imagem: Weber Shandwick: Priscilla Poubel//PauloLima

Especialista da UniCesumar alerta sobre o mau uso de consumo energético e hídrico  pode ser fatal para o meio ambiente e para o futuro

No próximo sábado, milhões de pessoas em todo o mundo apagarão suas luzes por uma hora para celebrar a Hora do Planeta, um gesto simbólico de compromisso com o meio ambiente.

No entanto, o que acontece quando o impacto ambiental mais significativo de nossas vidas não vem mais do interruptor na parede, mas da nuvem que armazena nossas fotos e da inteligência artificial que responde às nossas perguntas?

A pauta, que vai muito além do apagão de 60 minutos, lança luz sobre a “pegada invisível” da infraestrutura digital.

O gesto de desconectar luzes e dispositivos serve como um alerta para o consumo energético e hídrico voraz dos centros de dados globais.

“Certamente que, hoje, apagar as luzes por uma hora é mais um gesto pedagógico do que de fato uma solução técnica.

Atualmente, o impacto ambiental possui uma nova moradia: ele saiu do interruptor da sua sala e foi para o Data Center.

É importante conscientizar, principalmente as novas gerações, de que a conectividade tem um custo físico.

Mesmo que sua lâmpada esteja apagada, se você estiver transmitindo um vídeo em 8K ou treinando um modelo de IA nesse período, o consumo continua ocorrendo, mas em outro lugar”, explica João Messias, coordenador dos cursos de T.I da UniCesumar.

O custo real de um like

Essa “pegada invisível” refere-se ao rastro de recursos naturais necessários para cada ação online. Uma simples busca na internet mobiliza milhares de servidores, e o armazenamento de uma foto na nuvem exige eletricidade 24 horas por dia, 7 dias por semana. O ponto mais crítico, no entanto, é a ascensão da IA.

“Uma única interação com uma IA generativa consome significativamente mais energia que uma busca comum, pois o processamento exige bilhões de cálculos matemáticos instantâneos em GPUs potentes”, explica o professor. Para evitar o superaquecimento desses chips, os data centers utilizam sistemas de climatização robustos, que por sua vez consomem quantidades massivas de energia e, um recurso cada vez mais precioso: água.

A escala é monumental: um único complexo de data centers de grande porte pode consumir a mesma eletricidade que uma cidade de até 200 mil habitantes. “Data Centers são ‘sedentos’. Para refrigerar os servidores, utilizam-se torres de resfriamento que evaporam milhões de litros de água. Em regiões de escassez hídrica, isso compete diretamente com o abastecimento público e a agricultura”, alerta Messias.

O futuro é regenerativo

A solução, segundo o especialista, não está em frear o avanço tecnológico, mas em mudar a mentalidade de como o construímos. Ele aponta para o conceito de “Urbanismo Regenerativo”, que vai além da sustentabilidade tradicional.

“Enquanto o conceito de cidade sustentável foca em causar menos dano, o Urbanismo Regenerativo foca em recuperar. É uma cidade que funciona como um ecossistema. Se um Data Center gera calor, esse calor precisa ser reaproveitado, canalizado para aquecer a rede de água da cidade ou estufas agrícolas urbanas. A cidade passa a devolver recursos para o meio ambiente em vez de apenas extraí-los”.

Isso exige compromissos reais das Big Techs, que precisam ir além de simplesmente comprar créditos de carbono para “terceirizar a culpa”. Para Messias, as empresas devem investir em energia limpa 24/7, projetar hardware circular e desenvolver algoritmos mais eficientes, uma prática conhecida como “Green AI”. Governos e prefeituras também têm um papel crucial, incentivando e regulando a construção de infraestruturas que sigam esses princípios.

“O avanço da IA e da digitalização só será sustentável se mudarmos o paradigma vigente. A tecnologia deve ser parte da solução ambiental, não apenas uma consumidora voraz. Precisamos de eficiência por design, não por remorso”, conclui o professor da UniCesumar.

Sobre a UniCesumar

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