Trajetória de Antônio José mostra a importância de oportunidades para jovens acolhidos

Do acolhimento à universidade: a trajetória de Antônio José mostra a importância de oportunidades para jovens acolhidos
Tristezas e dificuldades fizeram parte da vida de Antônio José Santos dos Anjos, mas o jovem olha, hoje, para sua trajetória com orgulho e muitos planos para o futuro. Desde os 9 anos, viveu em instituições de acolhimento de Salvador e passou por diferentes experiências até chegar à vida adulta.
Foi nesse percurso que Antônio José se aproximou do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). Ele foi um dos jovens beneficiados pela campanha “Filhos são Eternos Bebês”, desenvolvida pela Corte para estimular a adoção necessária.
Aos 17 anos, foi incluído no cadastro de adoção. Embora a adoção não tenha se concretizado, Antônio teve a possibilidade de experimentar a convivência familiar. “Eu tive a oportunidade de vivenciar a experiência de viver em um ciclo familiar”, lembra.
Hoje com 20 anos, Antônio José está no 4º semestre do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mas pretende também cursar Direito e ingressar na magistratura. “Quero ser juiz para dar uma resposta à minha história. Quero cobrar da rede que cumpra seu papel e acolha em vez de afastar esses jovens”, afirma.
Dois anos depois de conquistar a sonhada matrícula no ensino superior, foi indicado pela universidade para participar de um processo seletivo destinado ao estudo de inglês e francês no Canadá. Ele foi um dos classificados e fará o intercâmbio a partir de 2027.
Para Antônio, sua trajetória reflete o apoio de pessoas que acreditaram nele. “Para os que estão em uma iniciativa como o Programa Novos Caminhos, é preciso aproveitar, porque temos quem se importa conosco. É uma porta que está se abrindo e o Judiciário está nos dando uma luz para quando sairmos do acolhimento”, aconselha.
Atualmente, Antônio preside o Movimento Além do Acolhimento, entidade liderada por jovens egressos de serviços de acolhimento institucional ou familiar, que atua na defesa de direitos, autonomia e políticas públicas para aqueles que precisam iniciar a vida adulta após o desligamento desses serviços.
Sua história com as instituições de acolhimento e sua busca por afeto estão registradas também no primeiro livro de sua autoria, intitulado “Onde se escondeu o afeto?”.
Novos Caminhos

Durante o 1º Encontro Nacional do Programa Novos Caminhos (PNC) em Brasília – evento promovido pelo Conselho Nacional de Justiça com vistas a discutir a transição de jovens em acolhimento para a vida adulta –, Antônio reencontrou o Corregedor-Geral da Justiça do TJBA, Desembargador Emílio Salomão Pinto Resedá, responsável, à época, por capitanear a campanha que possibilitou ao jovem a experiência de convivência familiar.
No Tribunal de Justiça da Bahia, o Programa Novos Caminhos busca ampliar as oportunidades oferecidas aos adolescentes acolhidos e aos jovens egressos, preparando-os para a autonomia na vida adulta.
Instituído pelo Conselho Nacional de Justiça mediante a Resolução nº 543/2024, o programa está estruturado em quatro eixos: educação básica, superior e profissional; vida saudável; empregabilidade; e parcerias para oferta de outras ações.
Na Bahia, está sendo estruturado, sob a condução da Coordenadoria da Infância e da Juventude (CIJ/TJBA), o Projeto Trilhas do Futuro – Integração e Autonomia, alinhado às diretrizes do Programa Novos Caminhos. A proposta reúne parceiros públicos e privados para ampliar o ingresso à educação, à saúde, ao esporte, à cultura e ao lazer. O foco central, voltado a jovens a partir dos 14 anos, é impulsionar a capacitação profissional e o acesso a oportunidades de aprendizagem, estágio e trabalho.

A iniciativa dá continuidade a uma experiência-piloto iniciada no ano passado, quando três adolescentes acolhidas foram inseridas no Programa Jovem Aprendiz do Banco do Brasil. A partir dessa experiência, a CIJ pretende consolidar a atuação para que as oportunidades alcancem um número maior de adolescentes e jovens.
Para a Desembargadora Andréa Paula Matos de Miranda, Coordenadora da Infância e da Juventude do TJBA, a história de Antônio evidencia a importância de preparar esses jovens antes da chegada da maioridade.
“A história de Antônio mostra a importância de oferecer oportunidades e, principalmente, de acreditar nas possibilidades de cada jovem. Um adolescente não passa a estar preparado para a vida adulta simplesmente porque completou 18 anos. A autonomia precisa começar a ser construída antes, com educação, qualificação, apoio e oportunidades concretas.”
Esse é um dos principais objetivos do trabalho desenvolvido pela CIJ, ressalta a magistrada. “Quando um jovem deixa o acolhimento, ele não pode sair apenas com seus pertences e com a responsabilidade de cuidar sozinho da própria vida. Precisamos ajudá-lo a construir perspectivas. É isso que queremos com o Trilhas do Futuro: ampliar as possibilidades para que cada um possa fazer suas escolhas e construir o próprio caminho, com autonomia e dignidade.”
O projeto foi concebido para funcionar por meio de uma rede de parceiros, reunindo instituições de formação profissional, entidades do Sistema S, agentes de integração, órgãos públicos, empresas e organizações da sociedade civil. A implantação iniciará com fluxo-piloto em Salvador, previsto para expandir a outras comarcas do Estado.



