Brasileiros que foram para Portugal agora olham para a Espanha

Da porta de entrada à saída: por que brasileiros que foram para Portugal agora olham para a Espanha
O custo de vida, a habitação, a burocracia e o aumento da percepção de hostilidade estão mudando a relação de parte da comunidade brasileira com Portugal, segundo análise do neurocientista luso-brasileiro Dr. Fabiano de Abreu Agrela
Portugal foi, durante anos, a principal porta de entrada dos brasileiros na Europa. Hoje, porém, uma parte dessa comunidade começa a olhar para a Espanha como alternativa.
O movimento não significa um abandono generalizado de Portugal, mas há sinais de uma mudança de preferência que merece atenção.
O número oficial já é expressivo: segundo o INE, 574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira residiam em Portugal em 2025, correspondendo a 35,9% da população estrangeira.
O número mais do que duplicou desde 2021.
Isso, contudo, não significa que existam “mais de um milhão de brasileiros” comprovadamente residentes no país.
Esse número não é sustentado pelos registros oficiais disponíveis.
A diferença entre registros administrativos e a população efetivamente presente existe, especialmente por dupla nacionalidade, processos migratórios pendentes e pessoas sem regularização, mas não há dado oficial que permita afirmar que a comunidade brasileira ultrapasse um milhão.
O mais seguro é dizer que os números administrativos subestimam parcialmente a presença real.
Para o neurocientista luso-brasileiro Dr. Fabiano de Abreu Agrela, representante lusófono, assessor da Câmara Portuguesa e ligado ao projeto Terras de Cabral, além de filho de portugueses nascido no Brasil, a mudança tem uma lógica econômica e social.
“Portugal deixou de ser aquele país relativamente barato que muitos brasileiros encontraram quando chegaram. O problema não é apenas o preço isolado de um produto; é a relação entre rendimento, habitação e custo cotidiano. Quando essa equação deixa de fechar, o imigrante começa naturalmente a procurar outro lugar.”
A habitação é talvez o exemplo mais evidente. Dados do Eurostat mostram que os preços das casas em Portugal aumentaram cerca de 180% entre 2015 e 2025, uma das maiores valorizações da União Europeia.
Ao mesmo tempo, a Espanha apresenta uma escala econômica maior e um mercado de trabalho mais amplo.
A população espanhola ultrapassou 49,5 milhões em 2025, impulsionada principalmente pela imigração, e a comunidade brasileira no país também vem crescendo.
O movimento de brasileiros entre Portugal e Espanha já é relatado por empresas especializadas em imigração como uma mudança relevante.
Reportagens de 2026 descrevem brasileiros que atravessam a fronteira portuguesa em busca de melhores condições econômicas, serviços e possibilidades de regularização.
Há ainda um componente menos mensurável, mas socialmente importante: a percepção de pertencimento.
Portugal possui uma relação histórica e cultural excepcionalmente próxima do Brasil, mas isso não impede a existência de xenofobia. Relatórios europeus apontam preocupação com a normalização do discurso de ódio contra imigrantes, enquanto dados anteriores da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial registraram crescimento expressivo das denúncias de discriminação.
“Existe uma diferença entre Portugal ser um país xenófobo e existir xenofobia em Portugal. A primeira afirmação generaliza uma sociedade inteira; a segunda é um problema real que precisa ser reconhecido. O brasileiro pode encontrar acolhimento extraordinário em Portugal e, ao mesmo tempo, experimentar episódios de discriminação. As duas realidades podem coexistir”, observa Fabiano.
Para ele, o fenômeno representa uma espécie de inversão histórica: Portugal foi durante anos a ponte mais natural entre o Brasil e a Europa; agora, para alguns brasileiros, essa ponte pode estar conduzindo à Espanha.
“Não acredito que estejamos diante do fim da relação entre brasileiros e Portugal. Pelo contrário. Mas estamos diante do fim de uma idealização. O brasileiro que chega hoje compara Portugal não apenas com o Brasil, mas com toda a Europa.
E quando compara preço de habitação, salários, serviços, oportunidades e ambiente social, a Espanha passa a entrar seriamente nessa equação.”
A mudança, portanto, não pode ser explicada por um único fator. É uma combinação de custo de vida, crise habitacional, rendimento disponível, burocracia migratória e percepção de integração.
E talvez o dado mais importante seja justamente esse: o imigrante contemporâneo não escolhe apenas um país para entrar na Europa; ele escolhe onde acredita que conseguirá construir uma vida sustentável.

Fonte: Créditos e foto: Divulgação / iMF Press Global



