SUS reforça rede de atendimento ao AVC, mas acesso ainda é desigual

Fonte: Assessoria de Imprensa: Jornalista Cinthya Brandão// Jornalista Carla Santana.
Integração entre SAMU, UPAs e hospitais, telemedicina e expansão de centros especializados estão entre as estratégias para acelerar o tratamento e reduzir sequelas.
Quando surgem sinais como boca torta, perda repentina de força em um lado do corpo ou dificuldade para falar, começa uma corrida contra o relógio.
No Acidente Vascular Cerebral, o AVC, cada minuto sem atendimento pode aumentar o risco de morte e de sequelas.
Por isso, o SUS vem reforçando a organização de uma rede capaz de reconhecer, transportar, diagnosticar e tratar o paciente com mais rapidez.
Entre os principais eixos estão a integração entre o SAMU, as Unidades de Pronto Atendimento e as emergências hospitalares; a consolidação das linhas de cuidado para AVC, infarto e trauma; a estruturação de unidades especializadas; a implementação da telemedicina; e a ampliação da habilitação e da acreditação de centros de AVC.
Para o neurologista Jamary Oliveira Filho, chefe da UTI Neurológica do Hospital Mater Dei Salvador e médico e pesquisador do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, o HUPES-UFBA, o maior desafio é fazer com que os diferentes serviços funcionem como partes de uma mesma estratégia.
“O AVC não permite que a rede trabalhe em ilhas. O SAMU precisa reconhecer a suspeita, comunicar previamente ao hospital e transportar o paciente para o serviço adequado. A emergência, por sua vez, deve estar preparada para realizar os exames e iniciar o tratamento imediatamente”, afirma.
A linha de cuidado define previamente o percurso do paciente, desde o reconhecimento dos sintomas até o hospital de referência, a internação em unidade especializada e o encaminhamento para a reabilitação. O objetivo é evitar que pessoas com suspeita de AVC sejam levadas a unidades sem tomografia, equipe capacitada ou acesso aos tratamentos necessários.
“Uma rede bem organizada precisa saber onde estão os serviços que realizam tomografia, trombólise e trombectomia. Não se pode começar a definir essa trajetória somente depois que o paciente já chegou à emergência”, explica Jamary.
A telemedicina também pode ajudar a reduzir desigualdades regionais. Por meio dela, profissionais de unidades do interior podem compartilhar exames e discutir os casos com neurologistas de centros de referência, agilizando decisões sobre o tratamento e a necessidade de transferência.
“A telemedicina amplia o alcance da neurologia vascular e dá mais segurança às equipes. Em localidades distantes dos grandes centros, pode representar a diferença entre tratar o paciente dentro da janela adequada ou perder essa oportunidade”, destaca.
Apesar dos avanços, o acesso ainda é desigual. Em áreas remotas, longas distâncias, dificuldades de transporte e ausência de tomografia ou de equipes treinadas atrasam o atendimento. Outro gargalo é a oferta de trombectomia mecânica durante 24 horas por dia, sete dias por semana. O procedimento, realizado por cateter para retirar o coágulo de uma grande artéria cerebral, exige estrutura hospitalar avançada e profissionais especializados.
Segundo Jamary, parte das estruturas que o SUS busca ampliar já faz parte, há anos, da rotina de hospitais privados de alta complexidade, como o Mater Dei Salvador. “Em centros privados de ponta, já trabalhamos com protocolos integrados, acionamento rápido das equipes, neuroimagem avançada e terapia intensiva especializada. O desafio é fazer com que esse padrão seja acessível e reproduzível em diferentes regiões da rede pública”, observa.
A ampliação da acreditação dos centros também é considerada estratégica. Mais do que conceder um selo, o processo avalia se o hospital possui equipe, infraestrutura, protocolos e indicadores compatíveis com as boas práticas no atendimento ao AVC.
O neurologista ressalta ainda que o cuidado não termina na alta hospitalar. Muitos pacientes precisam de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, acompanhamento médico e apoio psicológico para recuperar movimentos, fala, deglutição e autonomia.
“Salvar a vida é o primeiro objetivo, mas não pode ser o último. A assistência ao AVC só é completa quando inclui prevenção de novos eventos, reabilitação e apoio ao paciente e à família”, conclui.
Vá de SAMU: aprenda a reconhecer os sinais
Para facilitar a identificação dos sintomas do AVC, a população pode memorizar o mnemônico “Vá De SAMU”:
V — Visão: alteração repentina da visão. D — Desequilíbrio: dificuldade súbita para manter o equilíbrio ou caminhar. S — Sorriso: boca torta ao sorrir. A — Abraço: fraqueza em um dos braços ao tentar levantar os dois. M — Música: dificuldade para repetir uma frase simples, como se estivesse acompanhando uma música. U — Urgente: diante de qualquer um desses sinais, é urgente ligar para o SAMU pelo número 192.
Quanto mais rápido o paciente chegar a uma unidade preparada, maiores serão as possibilidades de tratamento e menores os riscos de morte ou de sequelas permanentes.


