Procedimento reabre artéria do coração e melhora qualidade de vida

Fonte: Jornalista Jacson Gonçalves

Recanalização de oclusão crônica pode beneficiar pacientes selecionados com doença arterial coronariana estável

A dor não começou no peito, como muita gente costuma imaginar quando pensa em problema no coração.

Para o advogado Alex Emanuel Vivas Sampaio, 67 anos, os primeiros sinais foram ardência e dor nas costas, em uma região localizada “mais ou menos abaixo do peito”.

O incômodo, associado ao cansaço diante de esforços maiores, levou ao diagnóstico de doença arterial coronariana estável, condição provocada pelo estreitamento ou obstrução das artérias que levam sangue ao músculo cardíaco.

Após o diagnóstico, Alex iniciou tratamento com medicamentos de uso contínuo. Dois meses depois, foi submetido ao cateterismo, exame que permite visualizar as artérias do coração.

Em abril deste ano, passou por uma angioplastia para recanalização de uma oclusão crônica total, termo usado quando uma artéria permanece totalmente entupida por pelo menos três meses.

“Correu tudo bem e estou me sentindo bem até o momento. Passei a me sentir mais disposto e as atividades que antes me cansavam não me cansam mais”, relata.

Quando a artéria fecha – Segundo o cardiologista intervencionista Sérgio Câmara, a oclusão crônica total é um dos cenários mais complexos da cardiologia intervencionista, mas os avanços técnicos têm ampliado as possibilidades de tratamento.

“Não se trata apenas de abrir uma artéria. A decisão precisa considerar sintomas, área do coração em sofrimento, exames de imagem, risco do procedimento e benefício esperado para aquele paciente”, explica.

A doença arterial coronariana ocorre, na maioria das vezes, pelo acúmulo de placas de gordura, cálcio e inflamação nas paredes das artérias.

Com o estreitamento, o coração recebe menos oxigênio, especialmente durante esforços. Quando a artéria fica totalmente fechada por longo período, o quadro é chamado de oclusão crônica total.

Nem todos os pacientes, porém, precisam de intervenção imediata. Muitos são acompanhados com tratamento clínico, controle rigoroso dos fatores de risco e uso de medicamentos.

Sintomas podem confundir – Os sintomas nem sempre seguem o padrão clássico de dor forte no peito. Em algumas pessoas, o problema pode se manifestar como dor nas costas, falta de ar, cansaço, mal-estar, suor frio ou desconforto irradiado para braços, mandíbula e região superior do corpo. Em idosos e diabéticos, os sinais podem ser ainda menos típicos, o que reforça a importância da avaliação médica diante de sintomas persistentes.

“A angioplastia entra quando há indicação bem definida, sobretudo quando os sintomas persistem, quando há limitação funcional ou quando exames mostram isquemia relevante, que é a falta de sangue em determinada área do coração”, afirma Câmara. A recanalização é realizada por cateterismo.

Por uma artéria do punho ou da virilha, o médico conduz cateteres até o coração e tenta atravessar a obstrução com fios-guia específicos. Depois, pode usar balões e implantar stents, pequenas malhas metálicas que ajudam a manter o vaso aberto.

Controle reduz riscos – As doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima que 19,8 milhões de pessoas morreram por doenças cardiovasculares em 2022, cerca de 32% de todos os óbitos globais. No Brasil, o Ministério da Saúde estima de 300 mil a 400 mil casos anuais de infarto, com uma morte a cada cinco a sete casos.

Para Sérgio Câmara, a tecnologia representa um avanço importante, mas não substitui prevenção e acompanhamento. “Abrir uma artéria é uma parte do cuidado.

O paciente continua precisando controlar pressão, colesterol, diabetes quando houver, usar corretamente as medicações prescritas, abandonar o cigarro, melhorar alimentação e incorporar atividade física com orientação médica”, reforça.

No caso de Alex, a intervenção trouxe melhora perceptível na rotina. Antes, atividades simples podiam provocar cansaço. Depois do procedimento, ele diz se sentir mais disposto.

“Me sinto bem”, resume. Câmara alerta que o stent trata uma obstrução específica, mas não elimina a doença arterial coronariana. Por isso, o acompanhamento regular é indispensável.

“Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de tratar no momento certo, com a estratégia mais segura para cada paciente”, conclui o especialista.